É no meio de um sistema pesaroso e dúbio que os alicerces da condição humana são estabelecidos: quanto mais se vive, mais se perde; ao passar dos anos, cada memória ganha, aos poucos, características oníricas, pairadas por uma atmosfera de planetas distantes e brilhantes, com perfumes intensos mas pouco importantes. Quanto mais se vive, mais se tem a certeza de que o tempo, com o seu esquemático papel de carrasco, tem o poder de desmoronar qualquer coisa — qualquer coisa.
Às vezes somos jogados num barco à deriva, e naufragamos numa ilha cheia de solidão e razão, enquanto a fé se esquece do seu próprio suposto poder. Mas a ilha não está deserta. Não, não, ela está cheia de olhos, olhos que são os geradores dos costumes básicos dessa ilha. E são esses costumes que acabam causando o grande desespero. O Grande Desespero.
É só olhar pros lados, ver todos te vigiando, te reprovando, mas dentro de si aquela certeza suprema te causa insônia. Aquela certeza de que você acabou encontrando o que procurara a vida toda, com todas as forças, com toda a alma. E que o tempo vá para o inferno. Os erros do passado não significam muita coisa: são coisas que aconteceram, só aconteceram, e dane-se. Dá pra se aprender coisas, sem dúvida, mas no fundo você continua o mesmo. E é só você, junto com essa certeza que te enlouquece, numa emanação de convivência compremetedora. E algum risco tem que ser assumido, mesmo com a inconsistência dos fatos; mesmo com a improbabilidade, mesmo com a incongruência da situação, deve-se assumir o risco, afinal, há a volumosa chance da reciprocidade — e só isso bastaria, independente do tempo que poderia vir a durar.
E pensando nisso eu olho nos seus olhos, no meio de um abraço, tocando seus cabelos longos, e pergunto: Were you with yearning?
domingo, 16 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Halcyon
Zumbis. Essa é mais uma das repetitivas e tendenciosas palavras que podem representar uma alegoria da sociedade atual. Mas essa sociedade não desenvolve em suas características ecumênicas, algo que possa fascinar certas pessoas de modo a fazer com que um texto atraente e instigante seja escrito. Hoje quero falar daquelas raras exceções, das exceções que fazem nossas vidas serem menos insuportáveis e não da cansativa sociedade como um todo.
Uma coisa que, não sei vocês, mas eu, pelo menos, venho percebendo nos últimos tempos é o fato um tanto quanto óbvio de que essas exceções nem sempre são pessoas inteiras, mas apenas parte delas, ou, até, uma mínima parte. É a ideia da chama azul da descrição do blog. Algumas pessoas tem grandes chamas, outras tem chamas medianas, outras tem chamas quase extintas. E saber ver e apreciar essas chamas é uma das coisas que fazem a vida se tornar um pouco menos desagradável. Todo esse procedimento fica concentrado no campo da intuição, da emoção humana, latente em cada um, inegável, mas simultaneamente ignorável, pelo menos até certo ponto.
Entendendo essa capacidade de localizar as chamas, olho pra dentro de mim e vejo um personagem com a desesperada e impossível vontade de querer recriar o passado, guerrear de verdade por aquilo que não se teve coragem, alcançar o objetivo pelo qual jamais se julgou merecedor ou capaz de obter — é bem possível que essa seja a minha história. Ou de muitos. O mundo é meio que feito disso, de uma parcela de perdedores e outra, bem menor, de vencedores. Esses vencedores são gente que diz que ama, que realmente tem alguem para amar e que é profundamente amado, quase eternamente. Mas tudo acaba. Só que eles podem se gabar por pelo menos terem vivido isso, enquanto outros nem chegaram muito perto. O amor é o maior tema de todos, a coisa que gera o poder das chamas azuis, que move as galáxias e chacoalha a lugubridade. Ninguém pode fugir disso, é uma sina que te molda na Terra, positivamente ou negativamente. E aí vemos mais uma vez a questão da dualidade. Questão não: maldição. A dualidade é uma maldição remasterizada.
O amor me interessa mais que a dualidade, de fato. O amor me lembra de Ester mais uma vez, e da incessante paixão que ela nutre por um colega de classe, que não quer mais falar com ela por algum motivo que não é de meu conhecimento, ou por motivo nenhum, nunca vou entender essa pré-juventude. Ninguém entende. Quem se diz expert na área é tudo charlatão. As pessoas tem mais é que pararem de tentar entender tudo, arrumar resposta pra tudo: para o vazio que é inerente, para o sofrimento das derrotas passadas, para a tristeza do sonho nunca realizado, para cada coincidência, para cada sensação angustiantemente cativante; tudo para chegar cada vez mais perto de um falso conforto de consciência. Eu desafiaria todo mundo a viver com o desconforto, escancaradamente, desafiando a própria consciência. Vamos, assuma a sua enterrada verdade para você mesmo. Assuma a sua própria escuridão.
Mas o que vale na vida mesmo são os certos lapsos de lucidez, que fazem a gente sentir o peso dos anos sobre a crueldade do frio e dos perfumes gloriosos que nos amarguraram profundamente e fazem borbulhar dentro de nós a límpida certeza de que está tudo errado, de que a paixão é um brigadeiro de pedra e que isso só traz lágrimas culposas. Se há algo de bom — se REALMENTE há algo de bom, é algo que já se foi, que está aprisionado, e que a memória não é capaz de simular satisfatoriamente. Mas o mundo não acaba. Ele está aí, esperando você completar seus setenta e nove anos. E a função que talvez tenhamos que exercer seja a de encontrar alguma música que nos faça sorrir pelo prazer inexplicável que ela causa, e entender que talvez essa possa ser toda a felicidade alcançável que existe.
Uma coisa que, não sei vocês, mas eu, pelo menos, venho percebendo nos últimos tempos é o fato um tanto quanto óbvio de que essas exceções nem sempre são pessoas inteiras, mas apenas parte delas, ou, até, uma mínima parte. É a ideia da chama azul da descrição do blog. Algumas pessoas tem grandes chamas, outras tem chamas medianas, outras tem chamas quase extintas. E saber ver e apreciar essas chamas é uma das coisas que fazem a vida se tornar um pouco menos desagradável. Todo esse procedimento fica concentrado no campo da intuição, da emoção humana, latente em cada um, inegável, mas simultaneamente ignorável, pelo menos até certo ponto.
Entendendo essa capacidade de localizar as chamas, olho pra dentro de mim e vejo um personagem com a desesperada e impossível vontade de querer recriar o passado, guerrear de verdade por aquilo que não se teve coragem, alcançar o objetivo pelo qual jamais se julgou merecedor ou capaz de obter — é bem possível que essa seja a minha história. Ou de muitos. O mundo é meio que feito disso, de uma parcela de perdedores e outra, bem menor, de vencedores. Esses vencedores são gente que diz que ama, que realmente tem alguem para amar e que é profundamente amado, quase eternamente. Mas tudo acaba. Só que eles podem se gabar por pelo menos terem vivido isso, enquanto outros nem chegaram muito perto. O amor é o maior tema de todos, a coisa que gera o poder das chamas azuis, que move as galáxias e chacoalha a lugubridade. Ninguém pode fugir disso, é uma sina que te molda na Terra, positivamente ou negativamente. E aí vemos mais uma vez a questão da dualidade. Questão não: maldição. A dualidade é uma maldição remasterizada.
O amor me interessa mais que a dualidade, de fato. O amor me lembra de Ester mais uma vez, e da incessante paixão que ela nutre por um colega de classe, que não quer mais falar com ela por algum motivo que não é de meu conhecimento, ou por motivo nenhum, nunca vou entender essa pré-juventude. Ninguém entende. Quem se diz expert na área é tudo charlatão. As pessoas tem mais é que pararem de tentar entender tudo, arrumar resposta pra tudo: para o vazio que é inerente, para o sofrimento das derrotas passadas, para a tristeza do sonho nunca realizado, para cada coincidência, para cada sensação angustiantemente cativante; tudo para chegar cada vez mais perto de um falso conforto de consciência. Eu desafiaria todo mundo a viver com o desconforto, escancaradamente, desafiando a própria consciência. Vamos, assuma a sua enterrada verdade para você mesmo. Assuma a sua própria escuridão.
Mas o que vale na vida mesmo são os certos lapsos de lucidez, que fazem a gente sentir o peso dos anos sobre a crueldade do frio e dos perfumes gloriosos que nos amarguraram profundamente e fazem borbulhar dentro de nós a límpida certeza de que está tudo errado, de que a paixão é um brigadeiro de pedra e que isso só traz lágrimas culposas. Se há algo de bom — se REALMENTE há algo de bom, é algo que já se foi, que está aprisionado, e que a memória não é capaz de simular satisfatoriamente. Mas o mundo não acaba. Ele está aí, esperando você completar seus setenta e nove anos. E a função que talvez tenhamos que exercer seja a de encontrar alguma música que nos faça sorrir pelo prazer inexplicável que ela causa, e entender que talvez essa possa ser toda a felicidade alcançável que existe.
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