quarta-feira, 28 de abril de 2010

Navio Petroleiro Exxon Valdez

Foi um desafio grandioso, algo em que eu não botava muita fé. Ou, melhor dizendo, talvez a minha insegurança e o meu medo me impedissem de entender que começar a trabalhar no Colégio seria uma experiência que, mais do que qualquer outra coisa, me transmutaria em um indivíduo com uma personalidade que eu não conhecia — e mesmo ainda sem conhecer essa personalidade, sei discernir a diferença do que eu era antes do Colégio, e do que me tornei agora. Um ambiente diferente e uma função diferente requerem atitudes e procedimentos específicos, caso contrário, as coisas tenderiam a se desenrolar de maneiras mais difíceis do que como já foram. Afinal, ali existem dois cenários de pessoas com os quais se é obrigado a conviver e é através desse convívio que surge a caracterização da nova realidade.

De um lado estão os que são, assim como eu, funcionários. A maioria vai com a minha cara, me adora. Pelo menos aparentemente. Existem os que criticam, num trabalho você precisa disso, mesmo que às vezes a crítica não seja necessariamente construtiva, mas sim uma demonstração do mais puro desafeto — ninguém agrada todo mundo, meus queridos. O importante é ir captando o nível da malícia alheia, a atmosfera de intenções. E com esse atributo razoavelmente bem focalizado (e após alguns cruéis obstáculos que são mais desencadeados por culpa da própria inocência do indivíduo que lida com seus colegas de trabalho do que por qualquer outra coisa), segue-se em frente, num caminho que só não é mais incerto e obscuro porque temos lâmpadas no Colégio.

Virando a moeda, temos do seu outro lado a vastidão quase infinita e multifacetada de rostos jovens. A diversidade é assustadora. Todos eles juntos são como algo que, enquanto pode te proporcionar gigantesca alegria e fascínio, é capaz de, ao mesmo tempo, jogá-lo num poço de corrosiva escuridão e inércia. Sobreviver no meio de tamanha dualidade não é para qualquer um — pode ser mais fácil se você for um alienado extremamente egocêntrico e pomposo, mas pra mim, um jovem de dezenove anos que contesta a própria existência, a experiência acaba saindo-se de modo a trazer tanto um grande, prazeroso e positivo aprendizado, quanto uma estranha e excruciante dor invisível, difícil de esconder. Provavelmente é o resultado da dualidade. É cada vez mais insuportável suportar tudo isso, apesar de ter se tornado mais do que um trabalho, tomou característica de vício, a maior paixão mas também o maior ódio, e eu juro, não tenho nenhuma fissura por dualidades do tipo, e nem quero fazer alusões a situações em que sentimentos opostos coexistentem pacificamente: não, não é nada disso, até porque não existe paz nesses sentimentos. É uma grande bagunça mental, mas é impossível fugir, já que chegou-se a um ponto onde o ambiente do Colégio incorporou-se na alma do ser que efetua seu cargo inspetoral causando uma estranha incoerência que produz uma ferida incurável que jorra sangue a todo instante.

E isso mais uma vez me lembra da garota Ester, que, como vim a confirmar recentemente, tem na verdade sete irmãs e UM IRMÃO (sim, tem um homem no meio de todas essas mulheres). Lá está Ester, silenciosa e impassível, observando a rua enquanto espera a perua escolar. Peço para que ela entre. Ela reclama, diz não querer. Pergunto o porque dela gostar tanto de observar a rua, e os jovens que ainda permanecem ali mesmo após o final do período. Ela responde, objetiva: "Gosto de ver o movimento", e eu olho pros mesmos jovens que Ester e, hoje, penso se ela não poderia, numa realidade paralela em que sua mente visse além do que estava vendo, e que se isto não me faria imaginar que talvez não exista tanta dualidade quanto eu queira, talvez a minha esperança seja a causadora da dualidade, e se ela, Ester, não pensaria o seguinte: "Houveram tempos em que esses jovens pareciam civilizados. Hoje alguns parecem porcos podres. Enganam-se, perdem-se num turbilhão de sentimentos que não conseguem discernir, afundam-se individualmente na deterioração cultural de si mesmos, e com consciência disso. Conscientes da maldade que os domina, e que apreciam ver dominando mais ainda. Uma maldade que está além de qualquer conceito religioso, moral ou ético; é a maldade que está óbvia por si, que todos sentimos desde que nascemos, a maldade natural da existência. Talvez existam exceções, talvez existam luzes no meio da escuridão. Mas as luzes se contaminam pela escuridão. É como uma doença grave. Uma doença."

domingo, 25 de abril de 2010

A conspiração do Caos

Vozes e mais vozes incessantes e incansáveis soam e se unem nos seus ouvidos, todas chamando pelo seu nome, vozes de crianças que, quando não são divertidamente insanas, são desagradavelmente frustrantes. Um coração mais mole teria pena de sair correndo e deixá-las falando — um coração mais inocente não entenderia que, mesmo sendo crianças por volta dos onze anos, esse tipo de atitude em conjunto teria a mais pura intenção de simplesmente provocar o indivíduo que tem seu nome chamado continuamente e multiplamente. Esse coração mole ou inocente se perderia, no início, e, ainda com uma subdesenvolvida capacidade de discernir certas intenções óbvias das outras pessoas, teria cada vez mais dificuldades de superar o peso na consciência caso resolvesse sair correndo e deixar as crianças gritando. É, eu era assim no começo e, confesso, ainda existem vestígios desse coração mole em mim — mas a parte inocente vai se extinguindo cada vez mais.

Ou talvez nem tanto, afinal, é meio complicado para nós, seres humanos, termos alguma noção mais óbvia da nossa própria situação, pois, ainda que controlemos com cada vez mais eficiência as nossas próprias ações, nós simplesmente não nos vemos. E um espelho não ajuda muito. Nós conversamos com nós mesmos, todos os dias, conhecemos a nossa própria consciência, mas a existência que somos para o mundo é invisível para nós mesmos — pelo menos teoricamente falando porque, hoje em dia, com esses relatos de experiências extracorpóreas, não dá pra ter certeza de mais nada. É bem desleal tirar conclusões generalizadas sendo que, por mais que soe piegas, cada pessoa e sua própria consciência são entidades individuais ilegíveis completamente; na verdade, a questão aqui é mais profunda do que parece: se somássemos aquilo que vemos em nós mesmos com aquilo que os outros veem em nós, será que teriámos, no mínimo, um vislumbre do que poderiámos chamar de existência total? Nem adianta querer responder, muito provavelmente essa resposta não existe, mas é divertido cogitar qualquer coisa que seja, pelo menos pra distrair a mente.

Talvez o ponto que mais chama a atenção em todo o colégio seja a idade dos alunos. Quanto mais velho, mais desobediente, sutilmente mais personificado do que uma criança: a diferença nem é tão grande. Existe muita criança esperta, muita criança que já perdeu o brilho da infância há muito tempo. Uma criança de onze anos não consegue disfarçar totalmente um sofrimento indesejável; um jovem de dezoito anos, ironicamente, deseja disfarçar um momento de sofrimento, muito provavelmente com intuito de ser ouvido, ser visto, chamar a atenção — e é nesse ponto que a criança de doze e o jovem de dezoito se convergem, tornando inegável o fato de que as pessoas não mudam muito quando crescem, não lá no âmago delas.

E isso me faz lembrar de uma garota chamada Ester, onze anos de idade se não me engano. A menina tem sete irmãs (pois é, tudo mulher), sendo ela a caçula. Cada irmã tendo a criação parecida, cada uma numa fase diferente da vida, cada uma representando a visão de certos momentos do próprio futuro de Ester. Talvez isso passe pela mente dela, mesmo que ela não saiba bem como definir esse pensamento. Talvez um dia ela pense "Nossa, como foi enriquecedor ter uma quantidade numerosa de possíveis exemplos a seguir", sem saber que na verdade ela não precisava de exemplo nenhum, a sua individualidade sempre esteve formada em si mesma, desde quando nascera talvez. E os exemplos que guiam nossas vidas, no fim das contas, acabam sendo os mais pequenos e imperceptíveis, moldados por detalhes quase bizarros, se não fossem interessantes. E então você acaba se vendo sentado numa velha cadeira gelada de madeira sentindo o cheiro cansativo e ardente de um cigarro enlouquecidamente fumado.