A figura está ali, parada, talvez movimentando as pernas, talvez disposta a escolher um nome para si: disposta a escolher a força que o guiará. É como se fosse possível escolher. Talvez seja possível escolher. A figura está ali, sentada agora, sem saber exatamente como se respira, consumida pela sua própria arquitetura cambaleante; essa figura, quem sabe, é a luz, ou a escuridão — é a força, essa força que a guiará, a força que é até certo ponto maleável: essa força dirá se é luz ou se é escuridão. E aí cresce o mundo da tão teimosa dualidade. Não gosto dela, não gosto desse mundo dualista, mas como poderia negar a sua importância? Eu não vou negar — na verdade, vou domá-la, em mim, e mostrar a ela que ela é falha. Pois ela é, sempre, sempre. Seus extremos são inconstantes, podem despertar em intensidades diferentes, estacionarem em pontos diversos, ou, de repente, por uma quebra de "regras celestiais", partirem para outras linhas migratórias diferentes. Essas cortinas todas cobrem verdades intateáveis, quase insensíveis, mas que tentam tocar nossos corações de vez em quando, querendo nos fazer chorar, com um provável simples prazer de achar isso divertido ou até mesmo repugnante, onde a palavra acaba tendo um sentido mais obscuro e luminescente, trazendo assim certo prazer demoníaco. As verdades (as que não conhecemos) devem ter seus motivos para serem assim. Ou talvez nem motivo tenham. Seria uma sonora ironia.
Mas dentro dessa ironia e dessas camadas cruéis de densidades existenciais, alguns fragmentos perdidos restam para que nós, humanos, possamos provar o sabor da amargura e do vazio: e nesse último, principalmente, é que têm-se a certeza do quão infinito pode ser o poder que o mundo tem de nos afundar. Quando se chega num certo nível desse não-fundo, certas insígnias que serviam como firmamento da nossa índole desaparecem: insíginias como orgulho, gratidão, entusiasmo ou esperança tornam-se cinzas pisoteadas, nem encontra-se um vago vislumbre memorial de como eram antes do crepitar das chamas negras; mas a insígnia da esperança possui as formas mais resistentes, e é interessante imaginar que também tenha o visual mais chamativo, já que é nela que jogamos toda nossa feiura e podridão para que, um dia, ela nos traga alguma recompensa. Algumas vezes essa insígnia quase indestrutível acaba nos deixando lembrancinhas pequenas, artefatos impulsionadores: alguma luz, algum brilho nos mantenha ligados a esperança. E ficamos efetivamente hipnotizados por essa pequena luz, tal como uma mariposa se rebate contra uma lâmpada acesa, como se quisesse se incorporar nela, como se quisesse fazer parte de algo maior, de alguma felicidade mórbida, mas que a levasse, de alguma forma, a eternidade. O calor da lâmpada pode matar a mariposa — e eu prefiro não me preocupar com o tipo de sarcasmo divino que esse clichê pode ou não representar.
E, enquanto nesses patamares não se pode conhecer ao certo a qualificação geral de certas concepções, eu arrisco fazer uma conexão com dois dos pilares que nos fazem ser o que, infeliz ou felizmente, somos: a memória e as relações pessoais — e mesmo que o segundo pilar tenha em sua base a energia gerada pelo primeiro, a memória traz consigo uma simulação perneta das sensações que as pessoas, em carne e osso, poderiam nos trazer. E essas sensações são valiosíssimas dentro do período de tempo em que nascem e logo em seguida se despedaçam. A memória tem o dever de arquivar tudo e é da junção desses vários arquivos diversificados entre momentos e sensações que deve surgir uma certa sobrecarga no sistema, que acabe proporcionando as simulações incompletas. Há quem diga que as memórias existem para sabermos quem somos — e talvez alguém consiga sentir, num desbravamento profundo de seus momentos sensoriais, que a memória guarda um segredo, um pequeno segredo, ou uma luz fadigada, que está além desse ambiente comum e rotineiro. Talvez essa pequena luz desperte em alguém, no meio de algumas lembranças perdidas, um sorriso, um rosto, ou um cheiro doce que leve a um lugar repleto de brilhos dourados, e alguns espelhos; quem dera se, não sendo um sonho, esse estalo transcendental na memória não levasse esse alguém, de repente, a um salão azul, onde seus pés não tocariam o chão e, depois de algumas explosões galácticas, abriria os olhos e se daria conta de que estava deitado num solo avermelhado, e diante de si, veria aquele sorriso dentro de um rosto etéreo, fitando-o, para registrar o começo de um caminho onde seguiriam juntos, com as mãos dadas e bilhões de anos pela frente, além de tudo, além das próprias memórias embaralhadas que não existem mais.
domingo, 6 de junho de 2010
domingo, 16 de maio de 2010
Yearning (15min34s)
É no meio de um sistema pesaroso e dúbio que os alicerces da condição humana são estabelecidos: quanto mais se vive, mais se perde; ao passar dos anos, cada memória ganha, aos poucos, características oníricas, pairadas por uma atmosfera de planetas distantes e brilhantes, com perfumes intensos mas pouco importantes. Quanto mais se vive, mais se tem a certeza de que o tempo, com o seu esquemático papel de carrasco, tem o poder de desmoronar qualquer coisa — qualquer coisa.
Às vezes somos jogados num barco à deriva, e naufragamos numa ilha cheia de solidão e razão, enquanto a fé se esquece do seu próprio suposto poder. Mas a ilha não está deserta. Não, não, ela está cheia de olhos, olhos que são os geradores dos costumes básicos dessa ilha. E são esses costumes que acabam causando o grande desespero. O Grande Desespero.
É só olhar pros lados, ver todos te vigiando, te reprovando, mas dentro de si aquela certeza suprema te causa insônia. Aquela certeza de que você acabou encontrando o que procurara a vida toda, com todas as forças, com toda a alma. E que o tempo vá para o inferno. Os erros do passado não significam muita coisa: são coisas que aconteceram, só aconteceram, e dane-se. Dá pra se aprender coisas, sem dúvida, mas no fundo você continua o mesmo. E é só você, junto com essa certeza que te enlouquece, numa emanação de convivência compremetedora. E algum risco tem que ser assumido, mesmo com a inconsistência dos fatos; mesmo com a improbabilidade, mesmo com a incongruência da situação, deve-se assumir o risco, afinal, há a volumosa chance da reciprocidade — e só isso bastaria, independente do tempo que poderia vir a durar.
E pensando nisso eu olho nos seus olhos, no meio de um abraço, tocando seus cabelos longos, e pergunto: Were you with yearning?
Às vezes somos jogados num barco à deriva, e naufragamos numa ilha cheia de solidão e razão, enquanto a fé se esquece do seu próprio suposto poder. Mas a ilha não está deserta. Não, não, ela está cheia de olhos, olhos que são os geradores dos costumes básicos dessa ilha. E são esses costumes que acabam causando o grande desespero. O Grande Desespero.
É só olhar pros lados, ver todos te vigiando, te reprovando, mas dentro de si aquela certeza suprema te causa insônia. Aquela certeza de que você acabou encontrando o que procurara a vida toda, com todas as forças, com toda a alma. E que o tempo vá para o inferno. Os erros do passado não significam muita coisa: são coisas que aconteceram, só aconteceram, e dane-se. Dá pra se aprender coisas, sem dúvida, mas no fundo você continua o mesmo. E é só você, junto com essa certeza que te enlouquece, numa emanação de convivência compremetedora. E algum risco tem que ser assumido, mesmo com a inconsistência dos fatos; mesmo com a improbabilidade, mesmo com a incongruência da situação, deve-se assumir o risco, afinal, há a volumosa chance da reciprocidade — e só isso bastaria, independente do tempo que poderia vir a durar.
E pensando nisso eu olho nos seus olhos, no meio de um abraço, tocando seus cabelos longos, e pergunto: Were you with yearning?
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Halcyon
Zumbis. Essa é mais uma das repetitivas e tendenciosas palavras que podem representar uma alegoria da sociedade atual. Mas essa sociedade não desenvolve em suas características ecumênicas, algo que possa fascinar certas pessoas de modo a fazer com que um texto atraente e instigante seja escrito. Hoje quero falar daquelas raras exceções, das exceções que fazem nossas vidas serem menos insuportáveis e não da cansativa sociedade como um todo.
Uma coisa que, não sei vocês, mas eu, pelo menos, venho percebendo nos últimos tempos é o fato um tanto quanto óbvio de que essas exceções nem sempre são pessoas inteiras, mas apenas parte delas, ou, até, uma mínima parte. É a ideia da chama azul da descrição do blog. Algumas pessoas tem grandes chamas, outras tem chamas medianas, outras tem chamas quase extintas. E saber ver e apreciar essas chamas é uma das coisas que fazem a vida se tornar um pouco menos desagradável. Todo esse procedimento fica concentrado no campo da intuição, da emoção humana, latente em cada um, inegável, mas simultaneamente ignorável, pelo menos até certo ponto.
Entendendo essa capacidade de localizar as chamas, olho pra dentro de mim e vejo um personagem com a desesperada e impossível vontade de querer recriar o passado, guerrear de verdade por aquilo que não se teve coragem, alcançar o objetivo pelo qual jamais se julgou merecedor ou capaz de obter — é bem possível que essa seja a minha história. Ou de muitos. O mundo é meio que feito disso, de uma parcela de perdedores e outra, bem menor, de vencedores. Esses vencedores são gente que diz que ama, que realmente tem alguem para amar e que é profundamente amado, quase eternamente. Mas tudo acaba. Só que eles podem se gabar por pelo menos terem vivido isso, enquanto outros nem chegaram muito perto. O amor é o maior tema de todos, a coisa que gera o poder das chamas azuis, que move as galáxias e chacoalha a lugubridade. Ninguém pode fugir disso, é uma sina que te molda na Terra, positivamente ou negativamente. E aí vemos mais uma vez a questão da dualidade. Questão não: maldição. A dualidade é uma maldição remasterizada.
O amor me interessa mais que a dualidade, de fato. O amor me lembra de Ester mais uma vez, e da incessante paixão que ela nutre por um colega de classe, que não quer mais falar com ela por algum motivo que não é de meu conhecimento, ou por motivo nenhum, nunca vou entender essa pré-juventude. Ninguém entende. Quem se diz expert na área é tudo charlatão. As pessoas tem mais é que pararem de tentar entender tudo, arrumar resposta pra tudo: para o vazio que é inerente, para o sofrimento das derrotas passadas, para a tristeza do sonho nunca realizado, para cada coincidência, para cada sensação angustiantemente cativante; tudo para chegar cada vez mais perto de um falso conforto de consciência. Eu desafiaria todo mundo a viver com o desconforto, escancaradamente, desafiando a própria consciência. Vamos, assuma a sua enterrada verdade para você mesmo. Assuma a sua própria escuridão.
Mas o que vale na vida mesmo são os certos lapsos de lucidez, que fazem a gente sentir o peso dos anos sobre a crueldade do frio e dos perfumes gloriosos que nos amarguraram profundamente e fazem borbulhar dentro de nós a límpida certeza de que está tudo errado, de que a paixão é um brigadeiro de pedra e que isso só traz lágrimas culposas. Se há algo de bom — se REALMENTE há algo de bom, é algo que já se foi, que está aprisionado, e que a memória não é capaz de simular satisfatoriamente. Mas o mundo não acaba. Ele está aí, esperando você completar seus setenta e nove anos. E a função que talvez tenhamos que exercer seja a de encontrar alguma música que nos faça sorrir pelo prazer inexplicável que ela causa, e entender que talvez essa possa ser toda a felicidade alcançável que existe.
Uma coisa que, não sei vocês, mas eu, pelo menos, venho percebendo nos últimos tempos é o fato um tanto quanto óbvio de que essas exceções nem sempre são pessoas inteiras, mas apenas parte delas, ou, até, uma mínima parte. É a ideia da chama azul da descrição do blog. Algumas pessoas tem grandes chamas, outras tem chamas medianas, outras tem chamas quase extintas. E saber ver e apreciar essas chamas é uma das coisas que fazem a vida se tornar um pouco menos desagradável. Todo esse procedimento fica concentrado no campo da intuição, da emoção humana, latente em cada um, inegável, mas simultaneamente ignorável, pelo menos até certo ponto.
Entendendo essa capacidade de localizar as chamas, olho pra dentro de mim e vejo um personagem com a desesperada e impossível vontade de querer recriar o passado, guerrear de verdade por aquilo que não se teve coragem, alcançar o objetivo pelo qual jamais se julgou merecedor ou capaz de obter — é bem possível que essa seja a minha história. Ou de muitos. O mundo é meio que feito disso, de uma parcela de perdedores e outra, bem menor, de vencedores. Esses vencedores são gente que diz que ama, que realmente tem alguem para amar e que é profundamente amado, quase eternamente. Mas tudo acaba. Só que eles podem se gabar por pelo menos terem vivido isso, enquanto outros nem chegaram muito perto. O amor é o maior tema de todos, a coisa que gera o poder das chamas azuis, que move as galáxias e chacoalha a lugubridade. Ninguém pode fugir disso, é uma sina que te molda na Terra, positivamente ou negativamente. E aí vemos mais uma vez a questão da dualidade. Questão não: maldição. A dualidade é uma maldição remasterizada.
O amor me interessa mais que a dualidade, de fato. O amor me lembra de Ester mais uma vez, e da incessante paixão que ela nutre por um colega de classe, que não quer mais falar com ela por algum motivo que não é de meu conhecimento, ou por motivo nenhum, nunca vou entender essa pré-juventude. Ninguém entende. Quem se diz expert na área é tudo charlatão. As pessoas tem mais é que pararem de tentar entender tudo, arrumar resposta pra tudo: para o vazio que é inerente, para o sofrimento das derrotas passadas, para a tristeza do sonho nunca realizado, para cada coincidência, para cada sensação angustiantemente cativante; tudo para chegar cada vez mais perto de um falso conforto de consciência. Eu desafiaria todo mundo a viver com o desconforto, escancaradamente, desafiando a própria consciência. Vamos, assuma a sua enterrada verdade para você mesmo. Assuma a sua própria escuridão.
Mas o que vale na vida mesmo são os certos lapsos de lucidez, que fazem a gente sentir o peso dos anos sobre a crueldade do frio e dos perfumes gloriosos que nos amarguraram profundamente e fazem borbulhar dentro de nós a límpida certeza de que está tudo errado, de que a paixão é um brigadeiro de pedra e que isso só traz lágrimas culposas. Se há algo de bom — se REALMENTE há algo de bom, é algo que já se foi, que está aprisionado, e que a memória não é capaz de simular satisfatoriamente. Mas o mundo não acaba. Ele está aí, esperando você completar seus setenta e nove anos. E a função que talvez tenhamos que exercer seja a de encontrar alguma música que nos faça sorrir pelo prazer inexplicável que ela causa, e entender que talvez essa possa ser toda a felicidade alcançável que existe.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Navio Petroleiro Exxon Valdez
Foi um desafio grandioso, algo em que eu não botava muita fé. Ou, melhor dizendo, talvez a minha insegurança e o meu medo me impedissem de entender que começar a trabalhar no Colégio seria uma experiência que, mais do que qualquer outra coisa, me transmutaria em um indivíduo com uma personalidade que eu não conhecia — e mesmo ainda sem conhecer essa personalidade, sei discernir a diferença do que eu era antes do Colégio, e do que me tornei agora. Um ambiente diferente e uma função diferente requerem atitudes e procedimentos específicos, caso contrário, as coisas tenderiam a se desenrolar de maneiras mais difíceis do que como já foram. Afinal, ali existem dois cenários de pessoas com os quais se é obrigado a conviver e é através desse convívio que surge a caracterização da nova realidade.
De um lado estão os que são, assim como eu, funcionários. A maioria vai com a minha cara, me adora. Pelo menos aparentemente. Existem os que criticam, num trabalho você precisa disso, mesmo que às vezes a crítica não seja necessariamente construtiva, mas sim uma demonstração do mais puro desafeto — ninguém agrada todo mundo, meus queridos. O importante é ir captando o nível da malícia alheia, a atmosfera de intenções. E com esse atributo razoavelmente bem focalizado (e após alguns cruéis obstáculos que são mais desencadeados por culpa da própria inocência do indivíduo que lida com seus colegas de trabalho do que por qualquer outra coisa), segue-se em frente, num caminho que só não é mais incerto e obscuro porque temos lâmpadas no Colégio.
Virando a moeda, temos do seu outro lado a vastidão quase infinita e multifacetada de rostos jovens. A diversidade é assustadora. Todos eles juntos são como algo que, enquanto pode te proporcionar gigantesca alegria e fascínio, é capaz de, ao mesmo tempo, jogá-lo num poço de corrosiva escuridão e inércia. Sobreviver no meio de tamanha dualidade não é para qualquer um — pode ser mais fácil se você for um alienado extremamente egocêntrico e pomposo, mas pra mim, um jovem de dezenove anos que contesta a própria existência, a experiência acaba saindo-se de modo a trazer tanto um grande, prazeroso e positivo aprendizado, quanto uma estranha e excruciante dor invisível, difícil de esconder. Provavelmente é o resultado da dualidade. É cada vez mais insuportável suportar tudo isso, apesar de ter se tornado mais do que um trabalho, tomou característica de vício, a maior paixão mas também o maior ódio, e eu juro, não tenho nenhuma fissura por dualidades do tipo, e nem quero fazer alusões a situações em que sentimentos opostos coexistentem pacificamente: não, não é nada disso, até porque não existe paz nesses sentimentos. É uma grande bagunça mental, mas é impossível fugir, já que chegou-se a um ponto onde o ambiente do Colégio incorporou-se na alma do ser que efetua seu cargo inspetoral causando uma estranha incoerência que produz uma ferida incurável que jorra sangue a todo instante.
E isso mais uma vez me lembra da garota Ester, que, como vim a confirmar recentemente, tem na verdade sete irmãs e UM IRMÃO (sim, tem um homem no meio de todas essas mulheres). Lá está Ester, silenciosa e impassível, observando a rua enquanto espera a perua escolar. Peço para que ela entre. Ela reclama, diz não querer. Pergunto o porque dela gostar tanto de observar a rua, e os jovens que ainda permanecem ali mesmo após o final do período. Ela responde, objetiva: "Gosto de ver o movimento", e eu olho pros mesmos jovens que Ester e, hoje, penso se ela não poderia, numa realidade paralela em que sua mente visse além do que estava vendo, e que se isto não me faria imaginar que talvez não exista tanta dualidade quanto eu queira, talvez a minha esperança seja a causadora da dualidade, e se ela, Ester, não pensaria o seguinte: "Houveram tempos em que esses jovens pareciam civilizados. Hoje alguns parecem porcos podres. Enganam-se, perdem-se num turbilhão de sentimentos que não conseguem discernir, afundam-se individualmente na deterioração cultural de si mesmos, e com consciência disso. Conscientes da maldade que os domina, e que apreciam ver dominando mais ainda. Uma maldade que está além de qualquer conceito religioso, moral ou ético; é a maldade que está óbvia por si, que todos sentimos desde que nascemos, a maldade natural da existência. Talvez existam exceções, talvez existam luzes no meio da escuridão. Mas as luzes se contaminam pela escuridão. É como uma doença grave. Uma doença."
De um lado estão os que são, assim como eu, funcionários. A maioria vai com a minha cara, me adora. Pelo menos aparentemente. Existem os que criticam, num trabalho você precisa disso, mesmo que às vezes a crítica não seja necessariamente construtiva, mas sim uma demonstração do mais puro desafeto — ninguém agrada todo mundo, meus queridos. O importante é ir captando o nível da malícia alheia, a atmosfera de intenções. E com esse atributo razoavelmente bem focalizado (e após alguns cruéis obstáculos que são mais desencadeados por culpa da própria inocência do indivíduo que lida com seus colegas de trabalho do que por qualquer outra coisa), segue-se em frente, num caminho que só não é mais incerto e obscuro porque temos lâmpadas no Colégio.
Virando a moeda, temos do seu outro lado a vastidão quase infinita e multifacetada de rostos jovens. A diversidade é assustadora. Todos eles juntos são como algo que, enquanto pode te proporcionar gigantesca alegria e fascínio, é capaz de, ao mesmo tempo, jogá-lo num poço de corrosiva escuridão e inércia. Sobreviver no meio de tamanha dualidade não é para qualquer um — pode ser mais fácil se você for um alienado extremamente egocêntrico e pomposo, mas pra mim, um jovem de dezenove anos que contesta a própria existência, a experiência acaba saindo-se de modo a trazer tanto um grande, prazeroso e positivo aprendizado, quanto uma estranha e excruciante dor invisível, difícil de esconder. Provavelmente é o resultado da dualidade. É cada vez mais insuportável suportar tudo isso, apesar de ter se tornado mais do que um trabalho, tomou característica de vício, a maior paixão mas também o maior ódio, e eu juro, não tenho nenhuma fissura por dualidades do tipo, e nem quero fazer alusões a situações em que sentimentos opostos coexistentem pacificamente: não, não é nada disso, até porque não existe paz nesses sentimentos. É uma grande bagunça mental, mas é impossível fugir, já que chegou-se a um ponto onde o ambiente do Colégio incorporou-se na alma do ser que efetua seu cargo inspetoral causando uma estranha incoerência que produz uma ferida incurável que jorra sangue a todo instante.
E isso mais uma vez me lembra da garota Ester, que, como vim a confirmar recentemente, tem na verdade sete irmãs e UM IRMÃO (sim, tem um homem no meio de todas essas mulheres). Lá está Ester, silenciosa e impassível, observando a rua enquanto espera a perua escolar. Peço para que ela entre. Ela reclama, diz não querer. Pergunto o porque dela gostar tanto de observar a rua, e os jovens que ainda permanecem ali mesmo após o final do período. Ela responde, objetiva: "Gosto de ver o movimento", e eu olho pros mesmos jovens que Ester e, hoje, penso se ela não poderia, numa realidade paralela em que sua mente visse além do que estava vendo, e que se isto não me faria imaginar que talvez não exista tanta dualidade quanto eu queira, talvez a minha esperança seja a causadora da dualidade, e se ela, Ester, não pensaria o seguinte: "Houveram tempos em que esses jovens pareciam civilizados. Hoje alguns parecem porcos podres. Enganam-se, perdem-se num turbilhão de sentimentos que não conseguem discernir, afundam-se individualmente na deterioração cultural de si mesmos, e com consciência disso. Conscientes da maldade que os domina, e que apreciam ver dominando mais ainda. Uma maldade que está além de qualquer conceito religioso, moral ou ético; é a maldade que está óbvia por si, que todos sentimos desde que nascemos, a maldade natural da existência. Talvez existam exceções, talvez existam luzes no meio da escuridão. Mas as luzes se contaminam pela escuridão. É como uma doença grave. Uma doença."
domingo, 25 de abril de 2010
A conspiração do Caos
Vozes e mais vozes incessantes e incansáveis soam e se unem nos seus ouvidos, todas chamando pelo seu nome, vozes de crianças que, quando não são divertidamente insanas, são desagradavelmente frustrantes. Um coração mais mole teria pena de sair correndo e deixá-las falando — um coração mais inocente não entenderia que, mesmo sendo crianças por volta dos onze anos, esse tipo de atitude em conjunto teria a mais pura intenção de simplesmente provocar o indivíduo que tem seu nome chamado continuamente e multiplamente. Esse coração mole ou inocente se perderia, no início, e, ainda com uma subdesenvolvida capacidade de discernir certas intenções óbvias das outras pessoas, teria cada vez mais dificuldades de superar o peso na consciência caso resolvesse sair correndo e deixar as crianças gritando. É, eu era assim no começo e, confesso, ainda existem vestígios desse coração mole em mim — mas a parte inocente vai se extinguindo cada vez mais.
Ou talvez nem tanto, afinal, é meio complicado para nós, seres humanos, termos alguma noção mais óbvia da nossa própria situação, pois, ainda que controlemos com cada vez mais eficiência as nossas próprias ações, nós simplesmente não nos vemos. E um espelho não ajuda muito. Nós conversamos com nós mesmos, todos os dias, conhecemos a nossa própria consciência, mas a existência que somos para o mundo é invisível para nós mesmos — pelo menos teoricamente falando porque, hoje em dia, com esses relatos de experiências extracorpóreas, não dá pra ter certeza de mais nada. É bem desleal tirar conclusões generalizadas sendo que, por mais que soe piegas, cada pessoa e sua própria consciência são entidades individuais ilegíveis completamente; na verdade, a questão aqui é mais profunda do que parece: se somássemos aquilo que vemos em nós mesmos com aquilo que os outros veem em nós, será que teriámos, no mínimo, um vislumbre do que poderiámos chamar de existência total? Nem adianta querer responder, muito provavelmente essa resposta não existe, mas é divertido cogitar qualquer coisa que seja, pelo menos pra distrair a mente.
Talvez o ponto que mais chama a atenção em todo o colégio seja a idade dos alunos. Quanto mais velho, mais desobediente, sutilmente mais personificado do que uma criança: a diferença nem é tão grande. Existe muita criança esperta, muita criança que já perdeu o brilho da infância há muito tempo. Uma criança de onze anos não consegue disfarçar totalmente um sofrimento indesejável; um jovem de dezoito anos, ironicamente, deseja disfarçar um momento de sofrimento, muito provavelmente com intuito de ser ouvido, ser visto, chamar a atenção — e é nesse ponto que a criança de doze e o jovem de dezoito se convergem, tornando inegável o fato de que as pessoas não mudam muito quando crescem, não lá no âmago delas.
E isso me faz lembrar de uma garota chamada Ester, onze anos de idade se não me engano. A menina tem sete irmãs (pois é, tudo mulher), sendo ela a caçula. Cada irmã tendo a criação parecida, cada uma numa fase diferente da vida, cada uma representando a visão de certos momentos do próprio futuro de Ester. Talvez isso passe pela mente dela, mesmo que ela não saiba bem como definir esse pensamento. Talvez um dia ela pense "Nossa, como foi enriquecedor ter uma quantidade numerosa de possíveis exemplos a seguir", sem saber que na verdade ela não precisava de exemplo nenhum, a sua individualidade sempre esteve formada em si mesma, desde quando nascera talvez. E os exemplos que guiam nossas vidas, no fim das contas, acabam sendo os mais pequenos e imperceptíveis, moldados por detalhes quase bizarros, se não fossem interessantes. E então você acaba se vendo sentado numa velha cadeira gelada de madeira sentindo o cheiro cansativo e ardente de um cigarro enlouquecidamente fumado.
Ou talvez nem tanto, afinal, é meio complicado para nós, seres humanos, termos alguma noção mais óbvia da nossa própria situação, pois, ainda que controlemos com cada vez mais eficiência as nossas próprias ações, nós simplesmente não nos vemos. E um espelho não ajuda muito. Nós conversamos com nós mesmos, todos os dias, conhecemos a nossa própria consciência, mas a existência que somos para o mundo é invisível para nós mesmos — pelo menos teoricamente falando porque, hoje em dia, com esses relatos de experiências extracorpóreas, não dá pra ter certeza de mais nada. É bem desleal tirar conclusões generalizadas sendo que, por mais que soe piegas, cada pessoa e sua própria consciência são entidades individuais ilegíveis completamente; na verdade, a questão aqui é mais profunda do que parece: se somássemos aquilo que vemos em nós mesmos com aquilo que os outros veem em nós, será que teriámos, no mínimo, um vislumbre do que poderiámos chamar de existência total? Nem adianta querer responder, muito provavelmente essa resposta não existe, mas é divertido cogitar qualquer coisa que seja, pelo menos pra distrair a mente.
Talvez o ponto que mais chama a atenção em todo o colégio seja a idade dos alunos. Quanto mais velho, mais desobediente, sutilmente mais personificado do que uma criança: a diferença nem é tão grande. Existe muita criança esperta, muita criança que já perdeu o brilho da infância há muito tempo. Uma criança de onze anos não consegue disfarçar totalmente um sofrimento indesejável; um jovem de dezoito anos, ironicamente, deseja disfarçar um momento de sofrimento, muito provavelmente com intuito de ser ouvido, ser visto, chamar a atenção — e é nesse ponto que a criança de doze e o jovem de dezoito se convergem, tornando inegável o fato de que as pessoas não mudam muito quando crescem, não lá no âmago delas.
E isso me faz lembrar de uma garota chamada Ester, onze anos de idade se não me engano. A menina tem sete irmãs (pois é, tudo mulher), sendo ela a caçula. Cada irmã tendo a criação parecida, cada uma numa fase diferente da vida, cada uma representando a visão de certos momentos do próprio futuro de Ester. Talvez isso passe pela mente dela, mesmo que ela não saiba bem como definir esse pensamento. Talvez um dia ela pense "Nossa, como foi enriquecedor ter uma quantidade numerosa de possíveis exemplos a seguir", sem saber que na verdade ela não precisava de exemplo nenhum, a sua individualidade sempre esteve formada em si mesma, desde quando nascera talvez. E os exemplos que guiam nossas vidas, no fim das contas, acabam sendo os mais pequenos e imperceptíveis, moldados por detalhes quase bizarros, se não fossem interessantes. E então você acaba se vendo sentado numa velha cadeira gelada de madeira sentindo o cheiro cansativo e ardente de um cigarro enlouquecidamente fumado.
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