A figura está ali, parada, talvez movimentando as pernas, talvez disposta a escolher um nome para si: disposta a escolher a força que o guiará. É como se fosse possível escolher. Talvez seja possível escolher. A figura está ali, sentada agora, sem saber exatamente como se respira, consumida pela sua própria arquitetura cambaleante; essa figura, quem sabe, é a luz, ou a escuridão — é a força, essa força que a guiará, a força que é até certo ponto maleável: essa força dirá se é luz ou se é escuridão. E aí cresce o mundo da tão teimosa dualidade. Não gosto dela, não gosto desse mundo dualista, mas como poderia negar a sua importância? Eu não vou negar — na verdade, vou domá-la, em mim, e mostrar a ela que ela é falha. Pois ela é, sempre, sempre. Seus extremos são inconstantes, podem despertar em intensidades diferentes, estacionarem em pontos diversos, ou, de repente, por uma quebra de "regras celestiais", partirem para outras linhas migratórias diferentes. Essas cortinas todas cobrem verdades intateáveis, quase insensíveis, mas que tentam tocar nossos corações de vez em quando, querendo nos fazer chorar, com um provável simples prazer de achar isso divertido ou até mesmo repugnante, onde a palavra acaba tendo um sentido mais obscuro e luminescente, trazendo assim certo prazer demoníaco. As verdades (as que não conhecemos) devem ter seus motivos para serem assim. Ou talvez nem motivo tenham. Seria uma sonora ironia.
Mas dentro dessa ironia e dessas camadas cruéis de densidades existenciais, alguns fragmentos perdidos restam para que nós, humanos, possamos provar o sabor da amargura e do vazio: e nesse último, principalmente, é que têm-se a certeza do quão infinito pode ser o poder que o mundo tem de nos afundar. Quando se chega num certo nível desse não-fundo, certas insígnias que serviam como firmamento da nossa índole desaparecem: insíginias como orgulho, gratidão, entusiasmo ou esperança tornam-se cinzas pisoteadas, nem encontra-se um vago vislumbre memorial de como eram antes do crepitar das chamas negras; mas a insígnia da esperança possui as formas mais resistentes, e é interessante imaginar que também tenha o visual mais chamativo, já que é nela que jogamos toda nossa feiura e podridão para que, um dia, ela nos traga alguma recompensa. Algumas vezes essa insígnia quase indestrutível acaba nos deixando lembrancinhas pequenas, artefatos impulsionadores: alguma luz, algum brilho nos mantenha ligados a esperança. E ficamos efetivamente hipnotizados por essa pequena luz, tal como uma mariposa se rebate contra uma lâmpada acesa, como se quisesse se incorporar nela, como se quisesse fazer parte de algo maior, de alguma felicidade mórbida, mas que a levasse, de alguma forma, a eternidade. O calor da lâmpada pode matar a mariposa — e eu prefiro não me preocupar com o tipo de sarcasmo divino que esse clichê pode ou não representar.
E, enquanto nesses patamares não se pode conhecer ao certo a qualificação geral de certas concepções, eu arrisco fazer uma conexão com dois dos pilares que nos fazem ser o que, infeliz ou felizmente, somos: a memória e as relações pessoais — e mesmo que o segundo pilar tenha em sua base a energia gerada pelo primeiro, a memória traz consigo uma simulação perneta das sensações que as pessoas, em carne e osso, poderiam nos trazer. E essas sensações são valiosíssimas dentro do período de tempo em que nascem e logo em seguida se despedaçam. A memória tem o dever de arquivar tudo e é da junção desses vários arquivos diversificados entre momentos e sensações que deve surgir uma certa sobrecarga no sistema, que acabe proporcionando as simulações incompletas. Há quem diga que as memórias existem para sabermos quem somos — e talvez alguém consiga sentir, num desbravamento profundo de seus momentos sensoriais, que a memória guarda um segredo, um pequeno segredo, ou uma luz fadigada, que está além desse ambiente comum e rotineiro. Talvez essa pequena luz desperte em alguém, no meio de algumas lembranças perdidas, um sorriso, um rosto, ou um cheiro doce que leve a um lugar repleto de brilhos dourados, e alguns espelhos; quem dera se, não sendo um sonho, esse estalo transcendental na memória não levasse esse alguém, de repente, a um salão azul, onde seus pés não tocariam o chão e, depois de algumas explosões galácticas, abriria os olhos e se daria conta de que estava deitado num solo avermelhado, e diante de si, veria aquele sorriso dentro de um rosto etéreo, fitando-o, para registrar o começo de um caminho onde seguiriam juntos, com as mãos dadas e bilhões de anos pela frente, além de tudo, além das próprias memórias embaralhadas que não existem mais.