Foi um desafio grandioso, algo em que eu não botava muita fé. Ou, melhor dizendo, talvez a minha insegurança e o meu medo me impedissem de entender que começar a trabalhar no Colégio seria uma experiência que, mais do que qualquer outra coisa, me transmutaria em um indivíduo com uma personalidade que eu não conhecia — e mesmo ainda sem conhecer essa personalidade, sei discernir a diferença do que eu era antes do Colégio, e do que me tornei agora. Um ambiente diferente e uma função diferente requerem atitudes e procedimentos específicos, caso contrário, as coisas tenderiam a se desenrolar de maneiras mais difíceis do que como já foram. Afinal, ali existem dois cenários de pessoas com os quais se é obrigado a conviver e é através desse convívio que surge a caracterização da nova realidade.
De um lado estão os que são, assim como eu, funcionários. A maioria vai com a minha cara, me adora. Pelo menos aparentemente. Existem os que criticam, num trabalho você precisa disso, mesmo que às vezes a crítica não seja necessariamente construtiva, mas sim uma demonstração do mais puro desafeto — ninguém agrada todo mundo, meus queridos. O importante é ir captando o nível da malícia alheia, a atmosfera de intenções. E com esse atributo razoavelmente bem focalizado (e após alguns cruéis obstáculos que são mais desencadeados por culpa da própria inocência do indivíduo que lida com seus colegas de trabalho do que por qualquer outra coisa), segue-se em frente, num caminho que só não é mais incerto e obscuro porque temos lâmpadas no Colégio.
Virando a moeda, temos do seu outro lado a vastidão quase infinita e multifacetada de rostos jovens. A diversidade é assustadora. Todos eles juntos são como algo que, enquanto pode te proporcionar gigantesca alegria e fascínio, é capaz de, ao mesmo tempo, jogá-lo num poço de corrosiva escuridão e inércia. Sobreviver no meio de tamanha dualidade não é para qualquer um — pode ser mais fácil se você for um alienado extremamente egocêntrico e pomposo, mas pra mim, um jovem de dezenove anos que contesta a própria existência, a experiência acaba saindo-se de modo a trazer tanto um grande, prazeroso e positivo aprendizado, quanto uma estranha e excruciante dor invisível, difícil de esconder. Provavelmente é o resultado da dualidade. É cada vez mais insuportável suportar tudo isso, apesar de ter se tornado mais do que um trabalho, tomou característica de vício, a maior paixão mas também o maior ódio, e eu juro, não tenho nenhuma fissura por dualidades do tipo, e nem quero fazer alusões a situações em que sentimentos opostos coexistentem pacificamente: não, não é nada disso, até porque não existe paz nesses sentimentos. É uma grande bagunça mental, mas é impossível fugir, já que chegou-se a um ponto onde o ambiente do Colégio incorporou-se na alma do ser que efetua seu cargo inspetoral causando uma estranha incoerência que produz uma ferida incurável que jorra sangue a todo instante.
E isso mais uma vez me lembra da garota Ester, que, como vim a confirmar recentemente, tem na verdade sete irmãs e UM IRMÃO (sim, tem um homem no meio de todas essas mulheres). Lá está Ester, silenciosa e impassível, observando a rua enquanto espera a perua escolar. Peço para que ela entre. Ela reclama, diz não querer. Pergunto o porque dela gostar tanto de observar a rua, e os jovens que ainda permanecem ali mesmo após o final do período. Ela responde, objetiva: "Gosto de ver o movimento", e eu olho pros mesmos jovens que Ester e, hoje, penso se ela não poderia, numa realidade paralela em que sua mente visse além do que estava vendo, e que se isto não me faria imaginar que talvez não exista tanta dualidade quanto eu queira, talvez a minha esperança seja a causadora da dualidade, e se ela, Ester, não pensaria o seguinte: "Houveram tempos em que esses jovens pareciam civilizados. Hoje alguns parecem porcos podres. Enganam-se, perdem-se num turbilhão de sentimentos que não conseguem discernir, afundam-se individualmente na deterioração cultural de si mesmos, e com consciência disso. Conscientes da maldade que os domina, e que apreciam ver dominando mais ainda. Uma maldade que está além de qualquer conceito religioso, moral ou ético; é a maldade que está óbvia por si, que todos sentimos desde que nascemos, a maldade natural da existência. Talvez existam exceções, talvez existam luzes no meio da escuridão. Mas as luzes se contaminam pela escuridão. É como uma doença grave. Uma doença."
Essa sinceridade, de tão brutal, talvez seja quase impossível de aceitar. Mas as coisas são bem assim mesmo e não temos para onde correr. Belíssimo texto, assim como o primeiro.
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ResponderExcluirSinto que tu estas "entrando na vida" não somente passando por "ela", com olhos de águia observando esta sociedade que se apresenta repleta de jovens alienados, talvez perdidos, raros são os que estão conseguindo sair da "cegueira espiritual", das emoções que lhes dominam o seu próprio ser, se não se agrupam se sentem isolados, e o contrário sentem-se um falso acolhimento que somente mais tarde verão o resultado de tal escolha.
ResponderExcluirEspero que escolham as luzes, para não caírem em armadilhas ou abismos sem volta
A luz do conhecimento cega as pessoas, como Platão já disse há muito tempo em seu mito da caverna. Acho que esse texto transmite um pouco disso, descobrir a dualidade humana (talvez o homem seja infinitamente multifacetado) é complicado, pois, sinceramente, do alto de meu pedestal niilista eu acabo percebendo que nenhuma das faces humanas tenha algo de positivo. Talvez meu cara amigo, o ser humano seja a verdadeira doença. Muito bom texto!!!
ResponderExcluirO título do blog meio que reflete essa ideia. O desastre do Exxon Valdez causa danos ambientais até hoje. E vai se espandindo. Assim como a doença que contamina a humanidade.
ResponderExcluirA genialidade é algo que nem todos tem ,mas os que tem conseguem usá-la de forma esplendorosa .
ResponderExcluirPost show mano ,continua assim que cê tem futuro .
PS : Mal pela demora no comentário . :P
eahueaha
alan, sua visão da juventude é a pura realidade do futuro de cada um, que bom que na vida podemos optar e que estes jovens optem por um futuro diferete do que estão vivendo hoje.
ResponderExcluirA escuridâo faz parte da sobrevivência, ela nos tira o medo.
ResponderExcluirA doença requer a cura, então devemos procurar o caminho para obte-la.
escreva e ira curar-te,mesmo na escuridão,ascenda uma vela!
O.O Cada vez melhor!
ResponderExcluirAgora sim um texto mais realista me parece muito a sua realidade no trabalho.. rsrsrs
Esse texto é uma visão bem ampla do que esta acontecendo com muitas pessoas.
Aguardo os proximos textos =)
Agradeço os comentários. E, uma correção no meu comment acima: O título do POST (Exxon Valdez) reflete essa ideia de danos que se alastram.
ResponderExcluirNão é só a minha realidade no trabalho Jéssica, é meio que a realidade geral da sociedade. Mas, enfim, eu ainda tenho esperança na minha (sim, às vezes temos que ser egoístas) felicidade.
ResponderExcluirSeu Texto se resume a sua última frase. "UMA DOENÇA", a qual necessitamos de uma cura!
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