domingo, 16 de maio de 2010

Yearning (15min34s)

É no meio de um sistema pesaroso e dúbio que os alicerces da condição humana são estabelecidos: quanto mais se vive, mais se perde; ao passar dos anos, cada memória ganha, aos poucos, características oníricas, pairadas por uma atmosfera de planetas distantes e brilhantes, com perfumes intensos mas pouco importantes. Quanto mais se vive, mais se tem a certeza de que o tempo, com o seu esquemático papel de carrasco, tem o poder de desmoronar qualquer coisa — qualquer coisa.

Às vezes somos jogados num barco à deriva, e naufragamos numa ilha cheia de solidão e razão, enquanto a fé se esquece do seu próprio suposto poder. Mas a ilha não está deserta. Não, não, ela está cheia de olhos, olhos que são os geradores dos costumes básicos dessa ilha. E são esses costumes que acabam causando o grande desespero. O Grande Desespero.

É só olhar pros lados, ver todos te vigiando, te reprovando, mas dentro de si aquela certeza suprema te causa insônia. Aquela certeza de que você acabou encontrando o que procurara a vida toda, com todas as forças, com toda a alma. E que o tempo vá para o inferno. Os erros do passado não significam muita coisa: são coisas que aconteceram, só aconteceram, e dane-se. Dá pra se aprender coisas, sem dúvida, mas no fundo você continua o mesmo. E é só você, junto com essa certeza que te enlouquece, numa emanação de convivência compremetedora. E algum risco tem que ser assumido, mesmo com a inconsistência dos fatos; mesmo com a improbabilidade, mesmo com a incongruência da situação, deve-se assumir o risco, afinal, há a volumosa chance da reciprocidade — e só isso bastaria, independente do tempo que poderia vir a durar.

E pensando nisso eu olho nos seus olhos, no meio de um abraço, tocando seus cabelos longos, e pergunto: Were you with yearning?

9 comentários:

  1. É... Pois é, Sr. Sensível. Só não esqueça do cuidado essencialmente obrigatório dessa vez.

    ResponderExcluir
  2. Que belas palavras, discretas mais com um tom de aviso.. E como se tivesse pronto para encarar algo e não se preocupar com as consequencias.

    ResponderExcluir
  3. Não é bem não se preocupar com as consequências, é mais o fato de estar ciente delas e saber que faria tudo que tivesse ao alcance para fazer com que o sonho se realizasse. Mas, enfim, tem muitos outros fatores a serem discutidos nessa situação.

    ResponderExcluir
  4. Eu nem preciso dizer né ? Toda vez que você escreve, tenho vontade de te dar um murro, USAHUA, por você escrever coisas tão lindas e mágicas. Orgulho, padrinho <3

    ResponderExcluir
  5. É engraçado como se coloca em questão ao tempo, é verdade... infelizmente o tempo ´´e bem mais carrasco que conselheiro.
    Quem nunca pensou no que o futuro lhe guarda, ou que poderia fazer diferente se tivesse outra oportunidade, pois cai na real o passado é vestígio e o futuro mera utopia. Vivemos o hoje, o aqui, o agora. Na real só o presente é coerente. Devemos parar de nos apegar a tentativas fracassadas de ilusão, afina já somos iludidos demais para tentar cair no conto do vigário que o tempo nos propõe.
    Como o próprio autor disse: Temos que assumir riscos! E caiam na real, só se vive uma vez, e tudo trará consequências, boas ou não, mas tudo que fizer ou não lhe trará uma. Deixe de temer estas e tenha coragem de fazer seu destino e não ser mero expectador da sua própria vida.
    by: Fred Abadia

    ResponderExcluir
  6. valeeeu déeh, valeu meesmo ;D seempre ótimo o seu acompanhamento.

    e, é bem isso ae Ed, tem uma questão camuflada por trás, vou te contar a história em breve.

    maas, beeijão déeh, grande abraço Mr. Abadia. ;D

    ResponderExcluir
  7. "(...)quanto mais se vive, mais se perde(...)".
    Você sintetizou uma constante da existência humana em uma só frase, belíssimo texto ;D

    ResponderExcluir
  8. valeu, cara ;D
    em breve, novo texto ;)

    ResponderExcluir